terça-feira, 21 de abril de 2009

Dr. Thomas Szasz e a psiquiatria


Faço aqui uma breve reflexão; a dominação Estatal anda muito próxima de um sentimento de esvaziamento do próprio sentido libertário do indivíduo. Todo o homem goza da sua Liberdade, é regido por princípios que em última instância se submetem ao livre arbítrio, não obstante, o que vemos hoje em dia é um cultura anti-libertária, e aqui me refiro não ao combate ao Livre-Mercado e ao aumento do poder do Estado, mas ao auto-reconhecimento, a noção que cada indivíduo tem de si mesmo. A partir do momento em que o homem é resultado de um apanhado de condições preestabelecidas ou então apenas escravo de um fisiologismo que o incapacita, a idéia de Liberdade é tolhida; não mais existe um princípio interno e intrínseco que rege o comportamento do homem, uma regência não-dominadora.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Partido Republicano e a Escravidão

Pedro Ravazzano
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Hoje, a grande maioria dos analistas políticos, submersos na ideologia, quando olham para os EUA enxergam no Partido Republicano a encarnação de um conservadorismo doentio. Dois pontos devem ser levados em consideração; primeiramente, essa leitura parte de um princípio dialético que busca compreender a história como um processo de constante conflito existente na sociedade, desse modo, como o Partido Democrata – desde a década de 50 – passou a adotar um espírito muito mais progressista – na versão mais depreciativa do termo – sobrou para os Republicanos o papel dos representantes da opressão e retrocesso. Em segundo lugar, e não menos importante, vale frisar que o GOP (Grand Old Party) foi criado sustentado em princípios considerados eternos e intrínsecos a própria existência humana. Claro que o modus operandi se transforma ao longo do tempo, entretanto, quando há uma sólida base moral, ética, filosófica, que sustenta uma grande construção, não é de se estranhar que não haja grandes diferenças entre o que é crido por um Republicano atual – excluindo os inebriados com o mais radical neoconservadorismo – e um Republicano da época da fundação do partido, como Abraham Lincoln e John Fremont. O mundo adotou uma postura relativista, de rompimento com os princípios morais e existenciais que externamente atrelavam os homens a um fundamento cristão, não obstante, aqueles que criticam os tais "reacionários" e "antiguados" esquecem que toda a idéia de Ocidente e sua concepção de direito, valores, humanidade, justiça, universalidade, refletem o próprio cristianismo.

O amadurecimento espiritual foi essencial para o desenvolvimento de uma percepção política cada vez mais libertária em essência. Claro que com isso não queremos afirmar que todos os homens que se engajaram na luta da Liberdade, nos EUA, tenham sido religiosos conscientes, entretanto, e isso é inegável, o espírito, o ethos que norteava desde os atos corriqueiros até as mais elaboradas discussões filosóficas, na América, era sim fundamentado sobre um forte princípio cristão, daí que Tocqueville falasse que a primeira instituição política dos Estados Unidos fosse a religião. A própria questão escravista, nos EUA, era discussão também religiosa; sulistas e nortistas baseavam as suas defesas em passagens bíblicas e no conhecimento teológico. Os quacres – famosos cristãos pacifistas e filantropos que quando perseguidos pela Igreja Anglicana emigraram em massa para os EUA e fundaram a colônia da Pensilvânia - foram os primeiros que se opuseram a escravidão, seguidos dos protestantes evangélicos das igrejas do noroeste do país. Como disse Dinesh D’Souza “o que é notável é um grupo se opor à escravidão em princípio”, ou seja, não havia, por detrás desse feroz discurso abolicionista, um interesse secular, muitos sequer tinham tido contato com negros, mas lutavam contra a escravidão por conta da sua formação moral, ética e filosófica. O movimento anti-escravista tomou força com o Segundo Grande Despertar – uma onda de avivamento religioso, de grande efervescência da fé – encabeçado pelo advogado presbiteriano Charles Finney, que desaguou no “novo nascimento da liberdade”

Aqueles cidadãos que lutavam contra a expansão da escravidão, vindos de uma diversidade partidária e política, se reuniram em encontros organizados em Ripon - Wisconsin e Jackson - Michigan. Entre eles havia um forte desejo de criar um novo partido político, com um novo nome, congregando whigs e democratas ressentidos, mas que, acima de tudo, trouxesse em sua essência um radical espírito de liberdade. Todos reunidos sob uma única bandeira; “todos cooperaremos e seremos conhecidos como republicanos”. Oficialmente, em convenções realizadas em Wisconsin e Vermont, foi adotado o nome de Republicanos.

O Partido Republicano nasceu congregando ex-democratas – revoltados com a Lei de Nebraska – know-nothings [1] e free soilers [2]. Entretanto, quem mais fortaleceu as fileiras republicanas foram os membros do Partido Whig, fundado por Henry Clay, em alusão ao Partido Whig inglês; um partido conservador em princípios – o que era comum a todos os partidos americanos – mas liberal em métodos – dividido internamente entre os Old Whigs e New Whigs, os últimos mais próximos de uma visão francesa do liberalismo. Um grande nome do old wingism foi Edmund Burke. Enquanto Democratas não só defendiam a escravidão como insuflavam a sua extensão, whigs, e mais tarde republicanos, lutavam ardorosamente em defesa da Liberdade.

A Lei de Kansas-Nebraska, apoiada amplamente pelo Senador Democrata Stephen Douglas, de Illinois, regulava sobre a criação de dois novos estados americanos. Entretanto, esse Act tornou-se responsável por disseminar uma discussão que acelerou a crise interna na sociedade americana; anti-escravistas X pró-escravistas. Como esclarecido pelo Compromisso de Missouri, que procurando instaurar um equilíbrio entre os estados escravocratas e livres, determinou, em 1820, que os novos territórios, criados com a aquisição da Louisiana, ao norte do paralelo 36 o 30 ‘ seriam abolicionistas e os ao sul escravistas; Kansas e Nebraska deveriam ser estados livres, ou seja, anti-escravistas, não obstante, a proximidade com regiões escravocratas, assim como a própria articulação política de Douglas, que procurava não se indispor com os sulistas, fez com que a legalidade da escravidão fosse definida por um processo democrático, onde a “soberania popular” seria exercida. Com essa Lei o Compromisso de Missouri foi anulado e, mesmo o Kansas não se tornando escravista, mas sim livre – Nebraska só entrou na União como Estado depois da Guerra Civil – conseguiu acirrar os ânimos e aumentar o choque entre o Norte e o Sul; “Vamos a caminho de ver esse pais de jactanciosa liberdade convertido realmente em terra de escravidão”, dizia Lincoln. Infelizmente, durante todo o processo, se instaurou no Kansas um verdadeiro banditismo escravista, com constantes ataques a cidadãos e a propriedades de homens que defendiam a abolição, tudo muito bem orquestrado pelos senhores do estado “sulista” do Missouri; bem antes da Guerra Civil se iniciar sangue de americanos já era derramado.

Aqui vale uma breve análise; a democracia não é o fim, mas o meio. Ainda que seja supervalorizada, a democracia não passa de um “instrumental utilitário para salvaguardar a paz interna e a liberdade" (Hayek). O processo democrático não é perfeito, muito menos infalível. Na discussão escravista, os Republicanos argumentavam que a escravidão não era um tema meramente terceiro, muito menos era um assunto que só cabia a própria individualidade do cidadão americano – protegida pelas leis dos Estados escravocratas –, afinal a liberdade do homem branco se esbarrava na própria humanidade do homem negro que se encontrava tolhida. A escravidão sequer se encontraria dentro da esfera de decisões dos Estados da Federação; por ser uma imoralidade tamanha deveria ser extirpada de toda a nação, simplesmente afrontava os princípios libertários que fizeram os Estados Unidos e fizeram dos Estados unidos. Não havia, por parte dos anti-escravistas, nada mais do que uma legítima posição liberal; a soberania popular não transformaria a perversidade escravocrata em lícita e legal. Como disse Hayek “É injustificado supor que, enquanto o poder for conferido pelo processo democrático, ele não poderá ser arbitrário” e como falou Lincoln “Não importa de que maneira se apresente, quer saía dos lábios de um rei que intente subjugar seu próprio povo e viver de fruto de seu trabalho, quer de uma raça de homens, como desculpa para escravizar a outra, é sempre o mesmo princípio tirânico”

O Partido Republicano nasceu em defesa da Liberdade do homem negro, na radical vivência do espírito americano, o mesmo ethos que produziu os Pais Fundadores e norteou a Revolução. A grande ironia da eleição de Obama não é o fato dele ser negro, afinal os membros do GOP abriram as portas para que que um dia um afro-americano galgasse o mais alto degrau da política nacional, a piada pregada pelo Destino é fazer Barack Obama ser justamente eleito pelo partido que no passado defendeu ardorosamente a manutenção da escravidão e até pouco tempo contava com membros racistas, como os do Klu Klux Klan, dentre os seus filiados.

1 - Os know-nothings, que compunham o American Party, eram anti-escravistas e extremamente nativistas. Faziam radical oposição a presença estrangeira no país e, principalmente, aos católicos na política. Tinham influência na articulação nacional, mas não ao ponto de manter um partido político com vida longa, a grande maioria dos know-nothings foi absorvida no Partido Republicano.

2 - Os membros do Free Soil Party faziam radical oposição a expansão da escravidão nos novos territórios do Oeste. Diziam que um sistema com homens livres num solo livre era moralmente e economicamente superior ao escravocrata. Além da luta abolicionista, seus membros se engajaram na derrubada de leis que discriminavam os negros libertos. Foram rapidamente integrados ao Partido Republicano.

sábado, 18 de abril de 2009

Conflito na Palestina; Sangue, Fé e Ideologia

Pedro Ravazzano
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Eu não sei se sou eu que ando me impressionando com facilidade, ou se é o mundo que não mais se impressiona com nada. Acho que é a segunda opção! É engraçado como em todas as marchas em protesto contra a ofensiva israelense a Gaza sempre encontramos, tremulando com força, bandeiras com a Foice e Martelo, a flor socialista, até mesmo a bandeira do movimento homossexual. Isso, desde já, atesta o fato de que essa causa, dita humanitária, já se inebriou com a passional ideologia. Ou seja, não há fidelidade para com a verdade, não há a mínima sintonia ou concordância. Vejamos!

Em países como o Irã, tradicionalmente islâmico – diferentemente de nações moderninhas como Jordânia e Turquia -, os grupos comunistas locais são perseguidos, não tem participação no cenário político nacional. A pouco tempo houve uma comemoração, na Universidade de Teerã, onde foi celebrado o 40º aniversário da morte de Che Guevara, além do "brinde" pelo aumento das relações entre o regime iraniano e o socialismo bolivariano de Chavez. O mais engraçado desse irônico festejo foi o discurso de Hajj Saeed Qassemi, coordenador da Associação dos Voluntários Mártires-Suicidas, que afirmou que Ernesto Guevara era um homem religioso, submerso no sublime amor de Deus. Os filhos do Carniceiro de La Cabaña, que estavam presentes, imediatamente se opuseram a essa, mentirosa, afirmação; “Ele nunca conheceu Deus”, protestou Aleida Guevara com razão, onde já se viu um revolucionário comunista teísta? Resultado? Rapidamente foram deixados de lado pela organização do encontro, saindo do estrelato para o total anonimato em pleno evento dedicado ao seu pai.

Até mesmo nas nações islâmicas modernas, para não dizer modernistas, como a Turquia, os grupos esquerdistas locais sofrem com entraves, não gozam de uma total autonomia política. Inclusive Atatürk, o fundador da República Turca, aquele que proibiu os trajes típicos e perseguiu as mulheres que usavam véu, o responsável pela mudança do alfabeto de caracteres árabes para latinos, o promotor da aproximação da Turquia com a política e cultura européia, até mesmo ele passou a rechaçar os comunistas depois do florescimento da progressista nação turca.

A amistosa relação entre o esquerdismo e a causa Palestina, no Ocidente, nasce de uma identificação de Israel com os EUA e com o capitalismo, além do mais, com muita força, o desenvolvimento do conflito na região criou um cenário muito propício para análises desde socialistas panfletárias até marxistas mais puras. De todo o modo essa aliança não se fundamenta apenas numa experiência ocidental. Muitos palestinos, líderes das causas nacionais, eram comunistas e lançavam mão de um discurso dialético para identificar em Israel a personificação não só da opressão religiosa e cultural, mas também econômica e política. O Fatah, a maior facção da OLP, sempre nutriu características seculares, nacionalistas e centro-esquerdistas; é membro consultor da Internacional Socialista. Gozou de amplo apoio das frentes comunistas, recebendo armas e treinamento da URSS e dos países do Leste europeu. Ademais, vale frisar, dentro da Organização pela Libertação da Palestina, que tem o Fatah como maior denominação, se encontram diversos grupos de clara formação marxista e socialista, inclusive alguns com um histórico de terrorismo; Frente Popular pela Libertação da Palestina (segunda maior facção da OLP) – assassinou o Ministro do Turismo de Israel, em 2001, além de reivindicar três atentados -, Frente Democrática para a Libertação da Palestina (terceira maior facção da OLP) – responsável pelo Massacre de Ma'alot onde crianças e professores secundaristas foram seqüestrados e assassinados -, Partido do Povo Palestino – antigo Partido Comunista Palestino, comparsa da URSS no financiamento armado de militantes na região -, União Democrática Palestina, Frente de Luta Popular Palestina, Frente de Libertação da Palestina – responsável pelo ataque ao cruzeiro Achille Lauro e as praias israelenses de Nitzanim e Eliat. Além dessas ainda existem facções que faziam parte da OLP e que, como as outras sobreditas, partem dos mesmos princípios; Frente Popular pela Libertação da Palestina-Comando Geral – responsável por ataques suicidas contra civis e militares, ainda coopera com o Hezbollah em ataques a Israel, no sul do Líbano -, Frente Revolucionária Popular pela Libertação da Palestina – formada pela ala mais esquerdista da Frente Popular pela Libertação da Palestina. Hoje é insignificante.

O mais perigoso é que esse ethos socializante, com uma tradicional presença em certos núcleos judaicos liberais – os judeus ateus foram peças fundamentais na revolução bolchevique -, atinge de forma direta a identidade do Estado de Israel. Se Karl Marx concebia o Estado como reflexo da sociedade civil, ou seja, da contradição de classes, sendo um poder opressor da classe dominante, o Estado de Israel vai além, ele é a identificação imediata de um povo, ao menos surgiu com esse destacado objetivo; era o representante dos israelitas fugidos da Europa pós-guerra, a esmagadora maioria formada por judeus errantes, sem propriedade e espoliados pelos nazistas, não haviam, a priori, interesses de classe – por isso muitos judeus marxistas eram sionistas. O Estado de Israel surgiu, assim, com uma clara função paternalista, para não dizer salvífica; a esperança de liberdade para os judeus de todo o mundo.

Judeus embriagados com o discurso esquerdista, ao difundir essa argumentação, colocam em questão a existência do Estado de Israel porque, até então, sua nação esteve atrelada aos interesses do povo judaico. Desse modo, separado do seu objetivo basilar, com a deformação do sentido histórico da nação israelense, se possibilita uma nova leitura; Israel seria apenas mais um Estado onde os interesses da burguesia, classe economicamente privilegiada, reinam de forma absoluta. Ou seja, dentro de uma ótica marxista, se instaura uma hermenêutica dialética; a burguesia, representada nos judeus israelenses, e o proletariado, com a função revolucionária, na figura do palestino oprimido. Vamos além, essa interpretação se encaixa como uma luva dentro da análise histórica marxista, não necessariamente ortodoxa. A existência do Estado de Israel estimulou o crescimento dos meios de produção, o aprimoramento das forças produtivas – É só ver os índices de crescimento de Israel, além do mais, a Terra Santa se tornou um pólo de diversas indústrias, como a de informática e de tecnologia -, os conflitos e as guerras travadas acentuaram as contradições; a riqueza e progresso de um lado, a miséria e pobreza do outro. Os palestinos estavam privados de tudo; terra, bens, identidade, nacionalidade, estavam e estão alienados. Desse modo, se pensando como etnia explorada, se organizando enquanto tal, se pensa com vontade revolucionária, assim, por um processo dialético, os que estavam privados de tudo, de tudo poderão se apropriar; Israel e sua riqueza. Nessa inversão, a classe despojada de toda a humanidade particular, destruída pela alienação, carrega a missão de, através da revolução, resgatar a humanidade da humanidade, perdida às custas do progresso do capitalismo. Claro que Marx identificava o proletariado como apátridas, cidadãos do mundo, e aqui falamos de uma causa étnica, nacional. Para tanto, dentro de uma ótica heterodoxa, seguindo uma linha marxiana, é possível fazer essa leitura do conflito Israel-Palestino.

Entretanto, é importante lembrar, a ofensiva israelense contra Gaza se fundamenta nos contínuos ataques do Hamas contra as cidades do sul do país, mesmo durante o período de trégua. Nada justifica a morte de civis, palestinos e israelenses, mas devemos constatar que a incursão israelense é legítima e justa. O Estado de Israel tem o direito de existir, assim como os palestinos tem o direito de construir uma nação sólida e institucionalmente estruturada. A Palestina é uma realidade histórica, mesmo que certos pró-Israel insistam em sustentar uma argumentação falaciosa pautada em critérios políticos e econômicos – quando na verdade deve-se usar bases antropológicas -, como se a falta de uma moeda ou capital palestina, no período anterior a criação da Israel – um Estado, de fato, artificial -, atestasse a inexistência de identidade entre os Philistines.

Os palestinos estão sufocados no próprio sangue; em Gaza são governados pelo Hamas, uma organização que conseguiu desbancar a supremacia da OLP, com suas diversas facções internas, tomando a frente num espaço que era controlado por denominações politicamente ativas e ideologicamente formadas. Os grupos terroristas islâmicos ficavam a margem, servindo apenas para incitar o terror psicológico. Já o Fatah, que governa a Cisjordânia, experiente no cenário diplomático e político, se vê enfraquecido com a ascensão do Hamas, sem sustentação na população palestina, apenas servindo como um braço mais capacitado para negociações e acordos. Ademais, ambas as regiões se encontram isoladas e esquecidas; o bloqueio de segurança israelense, ao mesmo tempo que impede o acesso de armas e explosivos, assim como a entrada de palestinos em Israel (essas políticas, de fato, diminuíram radicalmente os atentados no país), impossibilita a entrada de alimentos, medicamentos, nas regiões. Alem disso, tanto a Cisjordânia quanto a Faixa de Gaza, sofrem com a falta de um Estado organizado, o que prejudica mortalmente o desenvolvimento do serviço público; é a barbárie instaurada, não há ordem. Entretanto, o que diferencia as ofensivas israelenses e os ataques do Hamas é que no primeiro caso existe o sincero interesse de minar a organização terrorista e suas bases, enquanto que os foguetes palestinos se dirigem propositalmente aos centros urbanos, alvos civis.

Israel, quer queira quer não, tem um nome a zelar se quiser o respeito internacional, ainda mais quando percebe a expansão do espírito pró-palestino.

Israel precisa se justificar perante todos os países da ONU, o Hamas não...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Piada neoclássica

P.: Por que os governantes usam calças de botão? R.: Porque eles não gostam de bens elásticos. Se você não entendeu, estude um pouco de economia, ou aguarde a explicação.

Tax Day Tea Party

As "Tea Parties" são manifestações organizadas por americanos comuns que buscam, simplesmente, defender os valores basilares que edificaram seu país. A internet, por sua vez, funciona como o grande meio de comunicação; é através do facebook e twitter que a movimentação é organizada e os encontros marcados. As manifestações foram tomando grandes proporções, cada vez mais pessoas se unem na defesa da Liberdade. As medidas do Presidente Obama, na contramão do espírito americano, principalmente com o crescente aumento do poder Estatal, são os principais alvos dos protestos. Fotos de algumas Tea Parties:

Little Rock, ArkansasOklahoma City, Oklahoma
Lansing, Michigan
Indianapolis, Indiana
Baton Rouge, Louisiana
Morristown, New Jersey
Fort Myers, Florida
Sacramento, California
Nashville, Kansas
Bossier-Shreveport, Louisiana

Chicago, Illinois





segunda-feira, 13 de abril de 2009

O valor educação

Francisco Luis
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Assim como resumi as teorias marxistas no texto “A subvalorização do valor”, agora eu volto a elas. Para os marxistas, o que garante valor às mercadorias é o valor trabalho, as horas de trabalho despendidas para a produção de uma determinada mercadoria. Pois bem, isso ficou muito claro para nós, mas mais uma dúvida surgiu, e o que garante valor ao trabalho? Para os neoclássicos, por exemplo, o trabalho, a mão-de-obra, é mais um dos vários custos de produção, estaria num mesmo patamar que os insumos. Não é bem essa explicação que eu procuro, então vamos partir para uma análise um pouco mais elaborada.

O que um trabalhador precisa para exercer determinada função? Várias são as respostas para essa pergunta, mas creio que todas irão se reduzir a uma básica; especificação, conhecimento e, reduzindo mais ainda, chega-se em educação. Era essa a resposta que eu procurava. A educação é o meio para alguém se capacitar para exercer determinada tarefa, determinado cargo. E quanto mais tempo tem de estudo mais importante é a incumbência e, logicamente, maior o salário – excluindo, obviamente, países que vivem na anticivilização; os comunistas.*

Voltando ao marxismo, o que define o salário de um cidadão? Nada, todos receberão o mesmo valor de remuneração. Temos como exemplo Cuba, onde boa parte de seus médicos trabalham de taxistas ou na informalidade, já que com as gorjetas e os ganhos extra salariais conseguem manter um padrão de vida digno. Então, o ideal de sociedade, para os marxistas, é aquele onde todos receberão uma mesma remuneração, todos terão o mesmo nível econômico, onde não haverá desigualdade. Claro que, teoricamente, o marxismo é extremamente eficiente – vide o sucesso que fez até hoje; desde colégios privados da classe média até renomadas universidades federais em todo o país -, não obstante, quando fazemos uma reflexão da práxis percebemos com clareza – claro que excluindo os que estão submersos na escuridão ideológica – quão ineficiente e bárbaro foi – e é – a experiência socialista – e que não venham com o papo do tal socialismo real. De todo o modo, será mesmo uma sociedade justa aquela em que um médico que estuda cerca de dez anos para exercer essa profissão, ou seja, que dispende tempo e dinheiro na sua formação, recebe a mesma quantia que um cidadão que nunca sequer se empenhou no seu aprimoramento pessoal? Creio que não, e tenho uma fé longínqua que mais pessoas concordam comigo.

Partimos então para Mises. Para ele os preços são determinados pela relação entre produtores e consumidores. Pensando isso para o mercado de trabalho, temos que os produtores se tornam consumidores e os operários se tornam produtores. Essa concepção do operário como um produtor, como um capitalista, deve machucar os ouvidos e deve cegar muitos dos comunistas mais fervorosos, mas é exatamente isso; no mercado de trabalho o operário é o dono dos meios de produção, a sua força trabalho. Pois bem, nesse mercado, os produtores, agora consumidores, irão procurar pelas melhores mercadorias, por aquelas que possuam uma melhor relação entre custo (salário) e trabalho realizado. Comparando o trabalhador a um carro, procura-se o carro que além de oferecer tudo aquilo que o comprador procura, seja mais eficiente no consumo de combustível em relação aos quilômetros rodados.

Entende-se, então, que o trabalhador a ser contratado, a receber o melhor salário, será aquele mais bem preparado. E o mais bem preparado é, teoricamente, aquele que tem mais horas de estudo específico naquela área. Então, uma forma “simples” de se tratar o valor do trabalho, ou custo do trabalho, ou salário, é remunerar com maiores dividendos aquele trabalhador com mais qualidade - que mais se sacrificou para estar lá - aquele que mais investiu em si mesmo, e não uma unificação de salários como ocorre em Cuba e em outras experiências estatólatras – comunistas e keynesianas. Temos que valorizar o melhor, o mais preparado, a livre iniciativa de se investir em si mesmo esperando colher frutos do trabalho; a meritocracia.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Segregação Racial Americana e o Estado

Pedro Ravazzano
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A questão racial, nos Estados Unidos da América, é sempre motivo de muita reflexão e discussão, até porque, com razão, a discriminação foi parte freqüente da história americana até meados do século XX. Não obstante, o que muitas pessoas não sabem é a profundidade, assim como a complexidade, dessa problemática. Devemos nos distanciar da ótica dialética, influenciada pelos liberais esquerdistas, que reduz o debate por meio da transformação do branco em opressor e do negro em oprimido. No mundo atual, onde cada vez mais toma força o discurso politicamente correto e onde as mentiras depois de tão repetidas viram verdades, nada melhor do que fazer uma análise sincera e presa aos fatos.

Todas as pessoas tendem a gravitar ao redor de outros indivíduos que tenham níveis de compreensão semelhantes aos seus – isso não era uma particularidade dos brancos americanos. Nos EUA tal postura era – e é - muito visível; diversas etnias construíram um mundo próprio e se desenvolveram integradas com os irmãos. Isso, a priori, não é uma atitude racista nem carrega consigo um espírito discriminatório, não há a intenção de desmerecer o outro, existe simplesmente uma natural empatia entre os indivíduos crescidos na mesma cultura e defensores de mesmos princípios. Em todo o mundo, em toda a história, grupos se formaram através da identificação de pessoas congregadas quer pela raça, renda, religião ou educação. Em terras americanas diversas etnias edificaram estruturas particulares. Isso é algo que se encontra desde sempre nos Estados Unidos – país erguido por peregrinos -, mas que foi intensificado com a chegada de imigrantes. Por exemplo, quando poloneses aportaram em Detroit, vindos para o Novo Mundo a procura de oportunidades, muitos foram os negros que saíram dos bairros populares tomados pelos polacos. A mesma coisa ocorreu quando da chegada de judeus da Europa Oriental na cidade de Chicago; os judeus alemães deixaram o bairro após a ocupação pelos seus irmãos vindos da Rússia. O sociólogo negro, E. Franklin Frazier, disse que dentro das próprias comunidades negras, que também eram formadas através da identificação dos seus membros e da auto-exclusão da sociedade, existiam divisões internas, conseqüências das diferentes rendas, educação e padrões de comportamento, com grupos vivendo em zonas distintas.

As políticas de integração forçada, adotadas pelo Estado americano para obrigar as relações culturais entre brancos e negros, apenas ajudaram no incremento discriminatório. Essas iniciativas governamentais optaram por desconhecer uma característica bem peculiar da sociedade americana; as etnias viviam integradas, elas edificaram um verdadeiro mundo próprio dentro das grandes cidades do país. Isso era perceptível não só entre os brancos, mas entre negros, orientais, latinos, judeus. No caso dos caucasianos ainda havia distinções entre os irlandeses, italianos, poloneses, ingleses etc. Constatamos o autoritarismo do Estado americano; obviamente a derrubada das leis segregacionistas era essencial para a construção de um país fundamentado no espírito de Liberdade pensado pelos Pais Fundadores, entretanto, em oposição a essa identidade americana, obrigar a integração racial – através da ação estatal – foi uma atitude arbitrária que acarretou no agravamento das discussões raciais. A segregação não impedia apenas os negros de freqüentarem bairros brancos, mas brancos de freqüentarem bairros negros. Depois da derrubada dessas leis – que, é claro, acabavam que favoreciam a estrutura branca da sociedade – não houve uma imediata mudança de postura, ao contrário, whites e blacks continuaram mantendo e estimulando o segregacionismo.

O pensador americano, Thomas Sowell, acredita que os programas governamentais, como o busing – que levava crianças negras para escolas brancas e vice-versa – assim como as ações afirmativas e programas sociais em geral, fizeram com os negros americanos confiassem demasiadamente no Estado, na manutenção de uma rede de segurança que impedia a própria motivação individual. O ilustre economista afro-americano ainda vai além, reconhece que essas iniciativas estatais – busing, cotas e leis especiais – apenas ajudaram a alimentar os sentimentos racistas de brancos. Sowell afirma que antes do Civil Rights Act de 1964 a condição do negro na sociedade era cada vez mais revista, com maior aceitação e uma natural integração – e aqui friso a ação sempre zelosa das Igrejas nesse projeto.

O Estado americano, com razão, derrubou as leis segregacionistas escolares em 1954, com isso havia plena liberdade de circulação entre todos os povos que formavam a América, entretanto, ao forçar uma integração racial, em 1972, transportando alunos brancos para escolas negras – que ficavam fora de seus bairros e longe geograficamente – e levando negros para escolas brancas, produziu uma bipolarização étnica e muita má vontade. Além disso, através de políticas sociais, como os subsídios, estimulou artificialmente o trânsito racial, não só retardando a natural e sadia integração como, de maneia obtusa, desconhecendo uma característica corrente dos diversos povos que compõem a América; a formação de bairros e escolas próprias – aqui vale um comentário, se engana quem acha que as escolas negras eram inferiores as brancas, como até pretendeu o tom usado pela Suprema Corte no caso Brown v. Board of Education ("separate educational facilities are inherently unequal.") – que abriu o caminho para a integração racial. Por ironia havia em Washington, perto da Suprema Corte, uma escola all-black que a oitenta anos já produzia uma educação de alta qualidade, inclusive em 1899 já superava duas das três escolas secundárias brancas do distrito, em testes padronizados. Em 1940, no Harlem, o bairro negro de Nova Iorque, tinham escolas que faziam pontuações semelhantes – as vezes maiores/menores - aos dos colégios da classe trabalhadora branca de Lower East Side. No sul do país, onde se concentrava grande parte da população negra e que tinha um sistema educacional inferior – tanto para brancos como para negros – as escolas all-blacks viviam em estado realmente crítico, o que apenas se agravava com a ação organizada de grupos racistas, como o Ku Klux Klan, o braço armado do Partido Democrata na região. De todo o modo, existem hoje escolas só para negros que tem grande sucesso e outras que falham no projeto educativo, assim como existem escolas heterogêneas que falham e outras que tem grande sucesso; a questão racial, o problema da segregação, não conseguiriam explicar.

Aqui ainda vale uma breve recordação. Rosa Parks ficou conhecida por se recusar a ceder seu lugar a uma pessoa branca no ônibus, no Alabama. O que as pessoas não sabem é que essas políticas discriminatórias só se instalaram por conta da ação estatal. Ironicamente, foi o governo que foi chamado para solucionar o problema segregacionista, mas foi o mesmo governo que o estimulou e incitou. Os interesses econômicos são diferentes dos interesses políticos; os proprietários das empresas de ônibus, trens e bondes até poderiam ser racistas, mas nenhum queria perder uma massa de clientes consumidores como os negros. Após o disenfranchisement – a revogação do direito ao voto dos eleitores negros no final do séc. XIX e início do séc. XX - ficou fácil a aprovação de leis de segregação racial, como as leis de Jim Crow. Não obstante, os empresários dos transportes enfrentaram a Justiça durante a elaboração, aprovação e aplicação dessas leis racistas. Tal tática atrasou em anos a execução das leis de Jim Crow em diversos lugares, mas depois de ratificadas muitos foram os homens brancos dos negócios presos e ameaçados por descumprir a ordem; o dinheiro do homem negro era tão bom como o dinheiro do homem branco.

O Estado se encontra no centro do problema; se por um lado foi o governo o responsável pelo estímulo ao segregacionismo, através da aprovação de leis que tolhiam a liberdade do homem negro – leis essas que sofreram com a repulsa de empresários que, ao defender a Livre-Iniciativa, defendiam a legitimidade do cidadão afro-americano. E aqui recordamos da memorável frase de Adam Smith; "não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu "auto-interesse", que pode muito bem ser entendida dentro do contexto abordado – por outro lado, foi o mesmo governo que, querendo derrubar a estrutura discriminatória que havia construído, adotou ações enérgicas e até truculentas ao obrigar a integração por meio do trânsito racial imposto, que não só maculava a liberdade do indivíduo branco e negro de escolher onde morar, onde estudar, como estimulava e incrementava os conflitos raciais – com certeza não era nada agradável ser um jovem branco obrigado a estudar numa escola negra ou ser um jovem negro obrigado a estudar numa escola branca, e tudo por conta dos gracejos do Estado. Peg Smith, uma senhora líder do movimento anti-busing em Charlestown, quando questionada sobre a sua resistência, afirmou: “Eu quero minha liberdade de volta. Eles levaram minha liberdade. Eles me dizem onde meus filhos devem estudar, isso é como viver na Rússia. Depois disso eles vão nos dizer onde devemos fazer compras”. Obviamente, as feministas americanas em nada apoiaram o clamor das mães que se viam impedidas de decidir sobre a educação dos filhos. As mesmas pessoas que comemoravam a decisão do Supremo Tribunal quanto ao “direito de escolha” da mulher em relação ao aborto eram as mesmas que se calavam quando o mesmo Estado revogava o direito da mãe de decidir sobre a educação do filho; de todo o modo, em ambos os casos há o mesmo princípio anti-natural, contrariando o direito intrínseco do homem; o direito a vida e o direito da autoridade familiar. Num encontro de discussão sobre a Equal Rights Amendment (Emenda da Igualdade de Direitos), que contava com a participação de mães anti-busing, uma brava matriarca se levantou e questionou se a ERA garantiria a uma mulher o direito de decidir sobre a educação dos filhos; ela foi convidada a se retirar. Os movimentos anti-busing seguiam o estilo libertário de desobediência civil, em nada se aproximavam de um espírito anti-americano, ao contrário, o discurso estava embebido no princípio tradicional de Liberdade que construiu o país. Infelizmente, como bem frisou Thomas Sowell, a ação violenta do Estado ao obrigar a integração racial apenas favoreceu o racismo na própria sociedade; muitos foram os grupos anti-busing que combinaram perversamente o patriotismo com o estúpido racismo. A cidade de Boston, por exemplo, se transformara num verdadeiro campo de guerra; havia força policial em todos os cantos da cidade, policiais escoltavam ônibus em todas as escolas, detectores de metais eram instalados e soldados patrulhavam até lanchonetes, inclusive cotas foram estipuladas para os policias, incitando a hostilidade racial dentro do sistema. Tudo isso por conta dos caprichos estatais ao obrigar os brancos a freqüentarem escolas e bairros negros e negros a freqüentarem escolas e bairros brancos. Assim disse Kevin White, prefeito de Boston: “As vezes, quando eu olho pela janela, eu vejo Belfast lá fora” – em alusão a capital da Irlanda do Norte que vivia tomada pelo exército por conta dos conflitos civis instaurados; de um lado a maioria protestante que detinha o controle do governo e impedia a ascensão de católicos, e do outro a ação organizada católica que tinha o apoio da República da Irlanda.

A política de integração forçada, busing, destruiu completamente o forte espírito comunitário que havia nos bairros. Antes da adoção dessas ações, pais, professores e estudantes geralmente viviam na mesma comunidade, participavam da mesma igreja e faziam compras no mesmo lugar. Havia mais modelos positivos para as crianças nesses dias. Quando a infra-estrutura da comunidade foi derrubada, quando as crianças foram obrigadas a estudar e viver em escolas e bairros que desconheciam a sua realidade e onde, para piorar, eram tratados como, no mínimo, excentricidades, se perdeu todos esses exemplos que faziam parte do cotidiano do jovem. Wellington Webb, que foi prefeito de Denver, viu o fim do busing como a oportunidade perfeita de reconstruir a vida comunitária; “Tendo de volta as escolas de bairro nós poderemos ajudar a reconstruir as comunidades” Infelizmente a esmagadora maioria das escolas de bairro, essas fechadas com as políticas de anti-segregação forçada, se encontrava em bairros negros, com isso o resgate e retomada de tão benéfica estrutura educacional ficou extremamente prejudicada.

Aqueles que, inebriados com o simplismo dialético, tentam transformar a complexa questão racial numa mera dicotomia entre brancos opressores e negros oprimidos desconhecem a realidade dos fatos. O grande artífice da crise racial nos EUA foi o Estado, tanto num primeiro momento, quando legitimou leis racistas, como posteriormente, ao obrigar a integração forçada. Sem dúvida alguma esse é um período muito triste da história americana, mas que deve ser recordado; a melancolia e o pesar desses tempos devem ser entendidos como reflexos da falta de adesão ao espírito libertário em sua sadia e positiva radicalidade. Quando um país é privado da Liberdade, quando o indivíduo se encontra tolhido e diminuído por conta da força Estatal, abre-se uma lacuna que é ocupada pela ação coercitiva do governo que impõe leis racistas e, em seguida, determina onde deve morar e onde seus filhos devem estudar.